Ansiedade e o que não depende de nós
- Redação Entre Asanas

- há 1 dia
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Em um mundo que valoriza previsibilidade, desempenho e domínio sobre tudo, a mente humana entra em conflito com a própria natureza da vida — imprevisível, mutável e fora de controle e é justamente nesse distanciamento que o sofrimento emocional se instala.
Por Redação
Vivemos na era do controle. Controlamos agendas, imagens, resultados, emoções e até o futuro — ou pelo menos tentamos. Ainda assim, a ansiedade cresce de forma silenciosa e constante, afetando pessoas de todas as idades, especialmente mulheres que acumulam funções, responsabilidades e expectativas. A pergunta que atravessa este tempo é simples e profunda: por que quanto mais tentamos controlar, mais ansiosos nos tornamos?
É nesse ponto que o diálogo entre o estoicismo, os Yoga Sutras de Patanjali e a saúde mental contemporânea se revela não apenas atual, mas necessário.

O ensinamento estoico: o que depende de nós
Epicteto, filósofo estoico do século I, ensinava que a base da liberdade humana está em distinguir claramente duas coisas: aquilo que depende de nós e aquilo que não depende. Segundo ele, nossos pensamentos, escolhas e atitudes estão sob nosso domínio; já os acontecimentos externos, o comportamento das outras pessoas, as perdas e as mudanças não estão.
Grande parte do sofrimento emocional nasce justamente da confusão entre esses dois campos. Quando tentamos controlar o que é externo, instável e impermanente, a mente entra em estado constante de alerta. Para o estoicismo, não são os acontecimentos que perturbam os homens, mas os julgamentos sobre eles.
Marco Aurélio* reforça essa ideia ao afirmar que a tranquilidade surge quando aprendemos a cooperar com a realidade, e não a combatê-la.
Ansiedade sob a ótica da saúde mental
Na psicologia contemporânea, a ansiedade está diretamente associada à antecipação excessiva do futuro, à ruminação mental e à necessidade de previsibilidade. O cérebro ansioso vive projetado à frente, criando cenários que ainda não existem, mas que são sentidos como reais pelo sistema nervoso.
Estudos em neurociência afetiva indicam que a antecipação constante do futuro ativa o sistema nervoso simpático, responsável pelo estado de luta ou fuga. O corpo entra em tensão, a respiração se torna curta, os músculos se contraem e a mente perde clareza.
O ponto de contato com o estoicismo é evidente: sofrer por aquilo que ainda não aconteceu é desperdiçar energia vital no presente.
Yoga Sutras: entrega e desapego
Patanjali aborda essa mesma questão de outra forma, mas com a mesma profundidade. Nos Yoga Sutras, dois conceitos são fundamentais para lidar com a ansiedade - dukkha, kleshas, vrittis: aparigraha (não apego) e ishvara pranidhana (entrega consciente).
Aparigraha nos convida a soltar a necessidade de acumular controle, certezas e garantias. Já ishvara pranidhana não significa submissão religiosa, mas a confiança de que a vida possui uma ordem maior do que a mente individual consegue compreender.
Quando tentamos controlar tudo, rompemos o fluxo natural da experiência. O Yoga ensina que a paz surge quando fazemos nossa parte com presença e ética, mas soltamos o apego ao resultado.
Onde estoicismo e Yoga se encontram
Apesar de nascerem em culturas diferentes, estoicismo e Yoga se encontram no mesmo ponto essencial: a liberdade interior.
O estoicismo treina a mente para aceitar a realidade com lucidez.
O Yoga treina o corpo, a respiração e a mente para silenciar o excesso de flutuações.
Eles se encontram, mas não são idênticos:
Estoicismo → racional, ético, lógico
Yoga → experiencial, meditativo, transcendental
Ambos compreendem que não é possível viver sem desafios, mas é possível viver sem ser escravizado por eles. A ansiedade diminui quando aprendemos a agir no presente e a confiar no processo da vida.
Aplicação prática: um exercício de clareza interior
Durante alguns minutos do dia, especialmente em momentos de ansiedade, experimente escrever duas listas simples:
O que depende de mim agora? (minhas escolhas, minha respiração, minha atitude)
O que não depende de mim? (opiniões alheias, resultados, tempo, passado)
Em seguida, leve a atenção à respiração por cinco ciclos lentos e profundos. Inspire reconhecendo sua responsabilidade interior. Expire soltando o que não está sob seu controle.
Esse exercício une razão (estoicismo) e prática somática (Yoga), ajudando o sistema nervoso a retornar ao equilíbrio.
Ansiedade não é fraqueza
A filosofia antiga jamais tratou a ansiedade como defeito moral ou fraqueza de caráter. Tanto estoicos quanto yogues compreendiam o sofrimento psíquico como parte da condição humana. O diferencial estava no treino constante da consciência.
Em um mundo que estimula controle, performance e aceleração, aprender a soltar é um ato de coragem.
A verdadeira força emocional não está em dominar tudo, mas em discernir, aceitar e permanecer presente, mesmo quando o futuro é incerto.
Para saber mais
*Quem foi Marco Aurélio?
Marco Aurélio foi um dos mais importantes representantes do estoicismo e também imperador do Império Romano entre os anos 161 e 180 d.C.
Ele é conhecido como o “imperador filósofo” porque, mesmo ocupando a posição mais poderosa de sua época, dedicava-se profundamente à reflexão sobre ética, mente e comportamento humano.
Marco Aurélio nasceu em 121 d.C., em Roma, e governou durante um período marcado por guerras, crises políticas e uma grande epidemia (a chamada Peste Antonina). Apesar dessas dificuldades, ficou conhecido por sua postura equilibrada, disciplinada e profundamente reflexiva.
Diferente de muitos governantes, ele buscava viver de acordo com princípios filosóficos, especialmente os do estoicismo — uma escola que ensina a lidar com as adversidades com lucidez, autocontrole e aceitação da realidade.
Sua obra mais famosa
Sua principal obra é o livro Meditações, que não foi escrito para o público, mas como um diário pessoal.
Nele, Marco Aurélio registra pensamentos sobre:
controle emocional
aceitação da impermanência
disciplina mental
responsabilidade individual
Uma das ideias centrais que aparecem em seus escritos é:
“Você tem poder sobre sua mente — não sobre eventos externos.”
Essa visão dialoga diretamente com o tema da sua reportagem: a ansiedade surge quando tentamos controlar o que está fora do nosso alcance.
Por que ele ainda é relevante?
Marco Aurélio continua atual porque fala exatamente sobre dilemas que ainda vivemos hoje:
excesso de preocupação com o futuro
dificuldade de lidar com o imprevisto
necessidade de controle
pressão emocional
Ele propõe algo simples, mas profundo: focar no que está sob seu domínio — pensamentos, escolhas e atitudes — e aceitar o restante com serenidade.
Referências
Epicteto. Enchiridion.
Marco Aurélio. Meditações.
Patanjali. Yoga Sutras.
Kabat-Zinn, J. Full Catastrophe Living.
American Psychological Association – estudos sobre ansiedade e regulação emocional.
Revista Entre Asanas – Inspirando consciência, movimento e transformação.




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