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A crise da atenção: por que está cada vez mais difícil se concentrar

Em um mundo que disputa cada segundo da nossa consciência, recuperar a própria atenção tornou-se um ato de autonomia.


Por Redação


A atenção como campo de disputa

A atenção humana tornou-se um território competitivo. Empresas de tecnologia, plataformas digitais, publicidade e sistemas de comunicação operam dentro de um modelo conhecido como “economia da atenção” — um termo introduzido pelo economista e psicólogo Herbert A. Simon, ganhador do Prêmio Nobel, ainda em 1971. Simon previu que, em um mundo rico em informação, a escassez não seria mais o conteúdo, mas a capacidade humana de absorvê-lo.



Mais de cinquenta anos depois, sua previsão se concretizou com precisão.


Um estudo conduzido pela empresa de análise digital Dscout, publicado em 2016, revelou que o usuário médio toca o próprio celular aproximadamente 2.617 vezes por dia, chegando a mais de 5.400 interações diárias entre os 10% mais ativos.


Cada toque, cada notificação, cada interrupção exige que o cérebro redirecione sua atividade.


Esse redirecionamento, embora pareça pequeno, possui um custo neurológico mensurável.

O cérebro em estado de fragmentação

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, Irvine, liderados pela Dra. Gloria Mark, especialista em comportamento digital e interação humano-computador, publicaram em 2004 e atualizaram em 2015 um estudo demonstrando que, após uma interrupção, o cérebro humano leva em média 23 minutos e 15 segundos para retornar completamente ao nível anterior de concentração.


Esse processo não é apenas cognitivo. É fisiológico.


Cada mudança de foco ativa circuitos relacionados à vigilância e à tomada de decisão, envolvendo o córtex pré-frontal — região responsável por funções executivas como planejamento, regulação emocional e autocontrole.


Com interrupções frequentes, essa região permanece em sobrecarga. Isso resulta em fadiga mental. Ansiedade. E dificuldade progressiva de sustentar atenção profunda.

O impacto no sistema nervoso

Um estudo conduzido pela Harvard Medical School, publicado em 2011 pelos pesquisadores Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert, analisou mais de 2.250 adultos em tempo real ao longo de suas atividades diárias.


O resultado foi significativo:

47% do tempo, as pessoas não estavam mentalmente presentes naquilo que estavam fazendo.

A mente vagava constantemente. E, mais importante, os pesquisadores concluíram que essa dispersão estava diretamente associada a níveis mais baixos de bem-estar.

Não era o que as pessoas estavam fazendo que determinava sua satisfação.

Era o quanto estavam presentes.


O que os antigos já sabiam

Séculos antes da neurociência, os textos clássicos do Yoga Sutras de Patanjali já descreviam a instabilidade da mente como a principal fonte de sofrimento humano.

Logo no segundo sutra, Patanjali define o Yoga como:


“Yoga é a cessação das flutuações da mente.”


Essas “flutuações” referem-se exatamente ao movimento constante da atenção — saltando entre memórias, projeções, estímulos externos e reações internas.

Nesse contexto, o treinamento da atenção não é apenas uma prática mental, mas um processo de reorganização da própria experiência de existir.


A atenção deixa de ser refém do ambiente externo e passa a ser uma capacidade dirigida conscientemente.


A ciência da atenção treinada

Nas últimas duas décadas, a ciência passou a investigar os efeitos concretos do treinamento da atenção por meio de práticas contemplativas.


Um dos estudos mais relevantes foi conduzido em 2007 pela Dra. Sara Lazar, neurocientista do Massachusetts General Hospital e professora da Harvard Medical School.


Utilizando exames de ressonância magnética, Lazar e sua equipe observaram que indivíduos com prática consistente de atenção e meditação apresentavam aumento da densidade de massa cinzenta em áreas associadas a:

  • aprendizado

  • memória

  • autorregulação emocional

  • e consciência corporal


Essas mudanças estruturais indicam que o cérebro se reorganiza em resposta ao treino da atenção.


Esse fenômeno é conhecido como neuroplasticidade. Em outras palavras: a atenção pode ser fortalecida como uma habilidade.

O papel do corpo nesse processo

O treinamento da atenção, conforme descrito na tradição do Yoga, começa pelo corpo.


A respiração, em particular, desempenha papel central.


Um estudo publicado em 2018 no Journal of Neurophysiology, conduzido por pesquisadores da Northwestern University, demonstrou que a respiração consciente influencia diretamente a atividade do locus coeruleus, uma região do tronco cerebral responsável por regular estados de alerta e atenção.


A respiração lenta e consciente reduz a hiperatividade desse sistema.

O resultado é um estado de atenção estável.


Alerta, mas não tenso.

Presente, mas não reativo.


Atenção como autonomia

O que está em jogo na crise da atenção não é apenas produtividade. É autonomia.


Sem atenção estável, o indivíduo torna-se reativo ao ambiente. Seus pensamentos seguem estímulos externos. Suas emoções seguem eventos momentâneos. Sua experiência torna-se fragmentada.


Treinar a atenção é recuperar a capacidade de escolher onde repousar a própria consciência.

É interromper o automatismo. É criar um espaço entre o mundo e a resposta ao mundo.


O retorno à unidade

O treinamento da atenção, conforme descrito nos estágios progressivos do Yoga, começa com a observação.


Observar a respiração.

Observar o corpo.

Observar os próprios pensamentos.


Gradualmente, a mente aprende a permanecer.

Esse processo não elimina os estímulos externos. Mas transforma a relação com eles. A atenção deixa de ser sequestrada. E passa a ser dirigida.


Nesse estado, o indivíduo retorna à experiência direta.

Não fragmentada. Não dispersa. Mas inteira.


O que acontece no cérebro quando a atenção é treinada

Estudo: Massachusetts General Hospital, Harvard Medical School

Pesquisadora: Dra. Sara Lazar

Ano: 2007 e 2011

Método: Ressonância magnética estrutural


Resultados observados:

  • Aumento da densidade do hipocampo (memória e aprendizado)

  • Redução da atividade da amígdala (associada ao estresse e medo)

  • Maior espessura cortical em áreas ligadas à autorregulação


Conclusão: o treino consistente da atenção produz mudanças físicas mensuráveis no cérebro.


O impacto da distração no desempenho cognitivo

Instituição: Universidade da Califórnia, Irvine

Pesquisadora: Dra. Gloria Mark

Ano: 2004 e 2015

Resultado-chave:

Após uma interrupção, o cérebro leva em média:

23 minutos e 15 segundos para recuperar o foco original.


O dado mais importante

Segundo o estudo de Harvard (Killingsworth & Gilbert, 2011):


A qualidade da atenção é um dos maiores preditores de bem-estar psicológico.

Mais do que circunstâncias externas. Mais do que conquistas. Mais do que produtividade. A forma como se vive cada momento determina a experiência de viver.


PRÁTICA — O Exercício Fundamental de Recuperação da Atenção

Duração: 3 minutos

Nível: acessível a qualquer pessoa

Objetivo: restaurar a estabilidade da atenção e regular o sistema nervoso


Este exercício treina o primeiro e mais essencial movimento descrito na tradição do Yoga: trazer a mente de volta ao momento presente por meio da percepção direta.

Não exige experiência prévia.

Apenas disponibilidade.


Passo 1 — Interromper

Pare o que estiver fazendo.

Se possível, sente-se com a coluna ereta, mas sem rigidez.

Os pés apoiados no chão. As mãos repousando sobre as pernas.

Se não puder sentar, permaneça em pé, apenas reduzindo o ritmo.

O ponto central é interromper o automatismo.


Passo 2 — Perceber a respiração

Sem modificar nada, observe a respiração como ela está.

Não tente respirar profundamente.

Não tente controlar.

Apenas perceba:

O ar entrando.O ar saindo.

Observe onde o movimento é mais perceptível:

No nariz. No peito. Ou no abdômen.


Esse simples ato ativa circuitos neurais associados à regulação e reduz a atividade excessiva do sistema de alerta, conforme demonstrado por pesquisas recentes em neurofisiologia respiratória.

Passo 3 — Reconhecer a distração

Em poucos segundos, a mente irá se afastar.

Pensamentos surgirão.

Planejamentos.

Memórias.

Isso é natural.

O ponto central não é impedir que a mente se mova.

É perceber que ela se moveu.

E, com simplicidade, retornar à respiração.

Esse retorno é o treinamento.

Cada retorno fortalece os circuitos neurais da atenção.


Passo 4 — Permanecer

Continue por três minutos.

Respiração após respiração.

Sem esforço excessivo.

Sem expectativa.

Apenas retornando.

Com o tempo, o sistema nervoso desacelera.

O corpo relaxa.

A mente estabiliza.


O que este exercício desenvolve

Segundo a definição apresentada nos Yoga Sutras de Patanjali, este processo inaugura Dharana — o estágio de estabilização da atenção.


Do ponto de vista científico, ativa o sistema nervoso parassimpático, responsável por estados de recuperação e equilíbrio.


Do ponto de vista subjetivo, restaura algo fundamental:

A capacidade de estar presente na própria experiência.


Frequência recomendada

Pratique 3 vezes ao dia:

  • ao acordar

  • no meio do dia

  • antes de dormir


Não como obrigação. Mas como um retorno.

Com o tempo, a atenção deixa de ser um esforço. E volta a ser um estado natural.

Revista Entre Asanas – Inspirando consciência, movimento e transformação.

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